O MOVIMENTO ANARCOPUNK E A LUTA CONTRA A HOMOFOBIA

Imaginem a situação: numa rua deserta, à noite, dois homens (namorados) caminham de mãos dadas. No sentido contrário vem um grupo de rapazes usando coturnos, jaquetas de couro com rebites e camisas com o símbolo da anarquia. O que aconteceria a esses rapazes?

Vocês, assim como eu, acreditariam presenciar mais um caso de homofobia, certo? Errado!
Se o grupo de rapazes forem anarcopunks, o casal de namorados não será incomodado (embora muito provavelmente fiquem com o c... na mão). E se alguém resolver ofender o casal, os anarcopunks certamente o defenderão.

Parece loucura isso, não? Mas não é. Certa vez li uma reportagem da Folha de São Paulo sobre um skinhead gay que lutava contra a homofobia. “Mas como assim skinhead gay?”, pensei, achando que a ideia fosse tão antagônica quanto um “palmeirense corinthiano”, ou um “vascaíno flamenguista”.
Instigado pela reportagem, resolvi ir atrás do tal skinhead gay da matéria. Não consegui. Mas consegui entrar em contato com a organização do Movimento Anarcopunk, em São Paulo. Fui super bem atendido pela Marina, que sempre respondeu aos meus e-mail com “abraços y resistência”.
Achei interessante fazer esta entrevista porque, pelo menos para mim, serviu para mostrar como somos preconceituosos (pré-conceitos). Sabemos o que é sofrer preconceito, e ainda assim temos os nossos. Sejamos sinceros, a gente, vez ou outra, tem a péssima tendência de julgar o conteúdo pela embalagem. Vai dizer que se fosse você e seu / sua namorado(a) na situação do encontro com o grupo de rapazes anarcopunks a possibilidade do coió não pareceria a mais certa?
Sendo assim, peço que leiam a entrevista que fiz com a Marina para conhecerem um pouco mais sobre o movimento anarcopunk.
Abraços y resistência!

Segundo a Wikipédia, anarcopunk é uma vertente do movimento punk que consiste de bandas, grupos e indivíduos que promovem políticas anarquistas. Sendo assim, os elementos música e política são as bases do movimento? Como pode ser resumida a filosofia anarcopunk?
R: A música e política são dois elementos dentre outros tantos que integram o que seria a cultura anarcopunk. As bases do movimento são a união da contra-cultura punk com a ideologia anarquista, o que agrega elementos diversos – como a música e a estética contestadora, as práticas e atuações políticas e culturais libertárias, a proposta do faça você mesmo, a busca pela quebra de padrões sociais impostos e reivindicação de formas anarquistas e livres de organização e vivência, dentre outras. Os grupos anarcopunks costumam se organizar a partir de princípios como a horizontalidade, o apartidarismo, as decisões com consenso e formas de relação não autoritárias, buscando colocar em prática no cotidiano suas idéias e propostas. Deste conjunto de princípios é que surgem as bandas, coletivos e associações, fanzines, distribuidoras de materiais, espaços autônomos e centros de cultura, comunidades, eventos e projetos diversos que são levados adiante por anarcopunks mundo afora. Alguns dos debates que também sempre estão presentes são o combate ao preconceito, homofobia, racismo e xenofobia; o debate de gênero (contra o machismo e o sexismo); a realização de ocupações urbanas como centros de cultura e prática libertária; a questão da libertação animal e da terra (vegetarianismo e veganismo); a busca por relações pautadas na liberdade, igualdade e solidariedade / apoio mútuo; o apoio às causas indígenas, quilombolas e de povos nativos; o frequente envolvimento com movimentos e causas sociais diversas. São inúmeros debates e lutas que vão se agregando às práticas anarcopunks, algumas mais ou menos presentes em cada realidade, mas que sempre acabam surgindo.
Site: xenofobia não é fobia à xanas, e sim aversão a estrangeiros. Já veganismo é uma ideologia (ou filosofia de vida) que prega a não exploração e abuso de animais, através de boicotes a empresas e produtos que exploram os mesmos.

(Crass, banda anarcopunk inglesa surgida em 1977)
Onde, quando e como surgiu o movimento anarcopunk e como ele veio para o Brasil?
R: O anarcopunk é resultado de uma politização cada vez maior que vai surgindo entre uma parcela do movimento punk, que começa gradativamente a adotar de forma mais séria e coerente a ideologia anarquista e a atuação política, cultural e social. A prática passa a ir além da música e os questionamentos começam a ter um embasamento político maior, surgindo o envolvimento com outras organizações libertárias e movimentos. Inicia-se na Inglaterra entre fins da década de 70 e início dos anos 80, e chega ao Brasil entre a segunda metade da década de 80 e início de 90. Ainda em fins dos anos 80 já existiam bandas anarcopunks na região nordeste do Brasil, e, em São Paulo, 1990 é o ano em que se costuma apontar o surgimento concreto do Movimento Anarco Punk na cidade, tendo como marco uma manifestação de 1º de Maio neste mesmo ano.
Como é o movimento no Brasil? Ele é espalhado pelos estados ou está concentrado em determinadas regiões?
R: Existem iniciativas anarcopunks em diversas cidades e estados pelo Brasil, com grupos organizados tanto nas regiões Sul e Sudeste, quanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Na atualidade a quantidade de grupos e indivíduos atuantes é menor do que há alguns anos atrás, mas ainda assim existem diversas iniciativas interessantes acontecendo e contato frequente entre os indivíduos de cada lugar. Já chegaram a ocorrer encontros anarcopunks a nível nacional, criando-se espaço para troca de experiências e realização de projetos conjuntos entre os grupos de diversas localidades. Em algumas regiões também foi frequente a organização de encontros regionais, com debates e reflexões coletivas sobre temas diversos e possibilidades reais de luta. Em São Paulo os encontros regionais acontecem semestralmente desde o início de 2000, e por muitos anos aconteceram encontros frequentes que reuniam os anarcopunks dos diversos estados da região nordeste, que produziam, inclusive, um boletim periódico unificado, com informações sobre tudo o que acontecia em cada localidade.
Que tipos de ações e eventos o movimento anarcopunk promove no Brasil?
R: Anarcopunks estão envolvidos em ações diversas tanto culturais quanto políticas e sociais que de alguma forma se ligam as suas convicções e propostas. E isso independente de uma agrupação coletiva ou ação individual. Desta forma dá pra encontrar, Brasil e mundo afora, indivíduos e grupos anarcopunks envolvidos em atos e manifestações sociais diversas, mobilizações populares, ocupações e centros de cultura, grupos de combate ao racismo e nazi-fascismo, panfletagens, colagens, bandas, fanzines e publicações impressas, produções audiovisuais e musicais, organização de eventos abertos, debates e palestras, coletivos feministas, queers, cooperativas de alimentação vegana (recusa ao uso de produtos e alimentos de origem animal), projetos editoriais, comunidades, e por aí vai. Em alguns casos há também o envolvimento com movimentos sociais de moradia, LGBT, negro, indígena, hip hop, etc.

(Alimentação vegana... É, faz sentido)
Admito que sou ignorante quanto ao assunto anarcopunk. A ideia que me vem à cabeça (e que pode ser totalmente equivocada) é o filme V de vingança. Há algo de anarcopunk nessa história?
R: A máscara do V de vingança tem sido usada atualmente em diversas manifestações mundo afora, e também é frequentemente usada por grupos como os Anonymous. Essa popularização da imagem do V de vingança talvez seja o que contribua para que você faça essa associação. Mas pensando em relação ao filme, se levarmos em conta a história do V de vingança que é passada nos quadrinhos do Alan Moore, existem várias passagens durante toda a história que fazem menção direta ao anarquismo. Já na adaptação que foi feita para o cinema, muitas destas referências foram deixadas de lado, como o clássico diálogo do V com a estátua da justiça, falando sobre liberdade e anarquia.
(Clique na imagem para assistir ao trailer do filme V de vingança)
É comum as pessoas que não conhecem o movimento terem preconceito com o visual de vocês? Faço esta pergunta por que, até então, minha ignorância me fazia enxergar um anarcopunk como um homofóbico em potencial.
R: O visual punk é por essência uma forma de choque cultural, muitas vezes agressivo e contestador, uma forma de expressar esteticamente todos os questionamentos à sociedade que o punk possui. Por isso, muitas vezes pode ocorrer algum tipo de preconceito ou incompreensão das pessoas ao redor. Mesmo quando os anarcopunks passaram a tentar se aproximar mais do movimento anarquista, na década de 90, houve discussões muito voltadas à questão do visual punk, que os anarquistas mais velhos, de outra geração, acreditavam ser agressivo demais e como algo que poderia atrapalhar a atuação com a sociedade em geral. Claro que com o tempo isso foi sendo aceito de outra forma. Mas é importante lembrar também que, atualmente, muito do que antes causava algum tipo de estranhamento nas pessoas, como o corte moicano ou as jaquetas de rebite, hoje é algo muito mais aceitável por conta de toda a comercialização da moda e indústria musical que ocorreu no decorrer destas décadas. Enfim, penso que o visual punk pode ter outras muitas facetas que não apenas aquela imagem vendida pela mídia. O importante dentro disso tudo é o faça-você-mesmo e a expressão das idéias. Quanto à questão da homofobia, o meio anarcopunk desde sempre questionou este preconceito por orientação sexual, pela própria essência de suas propostas de liberdade. Então muitas vezes isso foi também agregado no visual, como por exemplo já vi muitos homens anarcopunks usando saias, vestidos ou roupas consideradas “femininas”, como forma de questionar a homofobia e as imposições de papéis de gênero. E isso se reflete também nas formas de se relacionar com as outras pessoas.

Tomei conhecimento do movimento anarcopunk em julho do ano passado depois que li uma matéria da Folha de São Paulo sobre um rapaz chamado Danilo. O título da matéria era Skinhead gay luta contra a homofobia pelas ruas de São Paulo. Achei curiosa a matéria porque, até então, acreditava ser antagônico skinhead e homossexualidade. Como é a relação do anarcopunk com a questão LGBT?
R: A relação do anarcopunk com a questão LGBT é de simpatia e identificação, visto que uma das bandeiras de luta frequentemente colocadas é o respeito à orientação sexual de cada pessoa. Assim, um dos movimentos com que temos um bom contato e relação é justamente o LGBT. Em São Paulo o Movimento Anarcopunk inclusive participou de forma ativa da realização da 1ª Parada do Orgulho Gay, ainda nos anos 90, tendo contribuído com a questão da segurança do evento ante a possíveis ataques de grupos nazi-fascistas como Carecas do ABC, do Subúrbio e skinheads White Power. Para além disso, os casos de agressão e homofobia foram sempre alvo das denúncias de grupos e manifestações anarcopunks, e em 2005 a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo também homenageou o Movimento Anarcopunk com um prêmio de reconhecimento pela atuação política contra a homofobia. Em muitos lugares, as discussões relativas ao queer também tem surgido de uma forma mais intensa no decorrer dos últimos anos, com realização de debates sobre o tema, eventos, fanzines, etc. Quanto à questão do skinhead, existem na atualidade alguns grupos de skinheads que se declaram contra a homofobia, o racismo, etc. Na realidade de São Paulo esta questão é ainda relativamente nova se levarmos em conta um histórico mais longo de atuação violenta e intolerante de grupos skinheads racistas, homofóbicos e xenófobos, que data de fins dos anos 80. Levando em conta diversas divergências culturais e históricas que entram neste debate, mas também levantando questões políticas e uma análise da atualidade e realidade onde vivemos, optamos por manter um posicionamento de afastamento em relação a estes grupos skinheads, acreditando que esta questão deve ser vista com muita cautela e seriedade.
(Clique na imagem para ler a matéria da Folha de São Paulo)
Há muitos gays anarcopunks?
R: Sim, existem alguns entre gays, lésbicas e bissexuais pelo Brasil e também no mundo, e, como falei, a questão queer e LGBT tem estado bastante presente. Mas independente da orientação sexual de cada um, é bem comum no meio anarcopunk o questionamento relacionado às práticas e costumes homofóbicos que são reproduzidas pela sociedade no cotidiano, tentando-se combater também estas expressões de homofobia que acontecem no dia a dia das relações e que muitas vezes ninguém percebe. Por isso, quando o anarcopunk surge em São Paulo no início dos anos 90, algo que recebeu grande ênfase foram as ações de contestação aos costumes e práticas homofóbicas, e isso rendeu aos anarcopunks várias provocações vindas de outros grupos, de que “todos os anarcopunks são gays” e coisas do tipo. Mas o que prevalece disso tudo é o combate à homofobia em suas diversas expressões (cotidianas, estatais, institucionais, etc.).
Fale sobre o envolvimento anarcopunk com o caso Edson Néris.
R: Como falei anteriormente, uma luta que sempre esteve presente entre os anarcopunks é a questão do combate ao fascismo. Em todos os casos de agressão e assassinatos protagonizados por esses grupos, sempre houve algum tipo de resposta, como por exemplo nos casos dos assassinatos do estudante negro Fábio dos Santos, em 1993 (Santo André - SP), do iluminador cênico Carlos Adilson, em 1996 (Curitiba), ou mesmo o caso dos dois garotos que foram obrigados a pular de um trem em movimento por Carecas em Mogi das Cruzes, em 2003. E, em 2000, com a morte de Edson Néris na Praça da República, espancado por dezenas de Carecas do ABC até a morte por ser homossexual, o movimento anarcopunk se uniu a outros diversos grupos LGBTs e movimentos para uma manifestação em repúdio a esse ato de brutalidade e homofobia. De 2000 em diante, todos os anos, no mês de fevereiro, começamos a organizar atividades em memória de Edson Néris , como forma de denúncia e combate à ação de grupos nazi-fascistas, homofóbicos, racistas e xenófobos. Começou com uma manifestação de rua com panfletagem para, nos anos seguintes, se transformar em um mês de atividades, debates, palestras, apresentações de bandas, atos de rua, colagens, dentre outros, e que também chegou a acontecer em outras cidades e estados no decorrer dos tempos.
(Clique na imagem para saber mais sobre o caso Edson Néris)
Dê algumas dicas para quem quiser saber mais sobre o Movimento Anarcopunk.
R: Temos o anarcopunk.org que conta com diversos blogs com notícias, músicas, vídeos, livros para download, sites de coletivos de São Paulo, Porto Alegre, Lima (Peru), dentre outros. A proposta é reunir ali um pouco do que fazemos, pensamos e organizamos, pra quem quiser conhecer já é um ponto de partida para fazer contatos com outros grupos e indivíduos. Um meio importante de comunicação tanto para os anarcopunks quanto para os punks em geral são os fanzines, publicações feitas com a idéia do “Faça Você Mesmo” que podem ter formatos e tamanhos diversos, onde são colocados textos, reflexões, entrevistas, desenhos, poesias, e tudo o mais que a criatividade permitir. Os zines são outro meio importante para quem quer conhecer mais sobre as idéias. Existem também diversos filmes sobre o tema, como o The day the country died, um documentário inglês que fala sobre o início do anarcopunk na Inglaterra, ou mesmo o recente Noise e resistence, que apesar de não ser unicamente sobre anarcopunks, mostra muito do que atualmente existe mundo afora nesse sentido. Ainda falando em filmes, nos últimos anos iniciamos um projeto que se chama Anarco.Filmes Produções, focado em produzir documentários e curtas-metragens de forma simples e sincera com discussões ligadas à atualidade. Muitos dos vídeos que foram feitos nos últimos tempos estão também disponíveis na internet e podem ser vistos acessando o site. Teria ainda outras indicações, mas peço aos interessados que entrem em contato pelo e-mail info@anarcopunk.org.
Fale sobre a 12ª Jornada Antifascista que acontecerá em fevereiro.
R: Seguindo com as jornadas antifascistas realizadas desde a morte de Edson Néris, este ano estaremos realizando durante o mês de fevereiro e início do mês de março atividades de debate, palestras, apresentações musicais, exibição de vídeos e outros ligados à questão do antifascismo e combate à homofobia, racismo, xenofobia e intolerância. Para quem quiser ver a programação, é só acessar o blog do Movimento Anarcopunk de São Paulo ou entrar em contato pelo email (map.sp@anarcopunk.org). Para quem tiver dúvidas, críticas, ou simplesmente quiser trocar idéias, propor parcerias, é só escrever também! Força e resistência a todos no combate à homofobia e na luta pela liberdade!




